Domingo, 26 de Junho de 2022
Especiais Literatura

Princesa das marés:

uma mulher, o mar e um salão de festas

05/01/2022 às 10h10
Por: Carolinne Taveira
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É difícil falar de amor quando algo, dentro de si, está partido.

Ela se senta de frente ao mar e, ali, pode ser qualquer uma, eu, você, qualquer uma-outra, mas é ela. Não se inquieta com o silêncio, mas talvez com uma ausência pungente que só se dilacera num abraço, num verdadeiro e demorado abraço. Provavelmente, irá perder algo que julga importante, e logo lembra de uma frase presente em um livro de Clarice, quando uma personagem afirma: “senti a falta dele como se me faltasse um dente na frente: excruciante”. Absurda a presença da ausência, a ponto de o corpo sentir a lacuna, o vão, a sala vazia, com cadeiras postas nos cantos das paredes, com mesas completamente limpas e seguras em si mesmas, distantes de quaisquer presenças, mas ali. O espaço aberto completamente presente nele mesmo, sem nada ou ninguém e as frestas de luz que entram pelas beiradas quebradas de paredes antigas, mas firmes. O cheiro evocado também é sustentado pela ausência, e ainda assim o salão, imenso, é limpo pela história e pelo desejo de só ser tal como é. Está aberto à dança, passinhos curtos, passos acelerados, corpos que se misturam, mas que também sabem dançar no miudinho, sozinhos, a observarem a luz dos holofotes – verde, vermelho, azul, amarelo. E as cores ali são sempre lindas, são sempre muito lindas e preenchidas pela presença delas mesmas. A mulher logo pensa que tudo se trata de uma questão de perspectiva, então, o vazio dá margem para ser preenchido com alguma outra coisa, ainda que nem sempre isso seja possível e passível de realização e nem sempre há a necessidade de preenchimento. Abre o salão de festas, elabora um plano solitário de ornamentação, com penduricalhos e muitas cores. Embora o salão continue tal como estava, vazio, agora pode ser lido através de outras lentes. Um olhar mais cauteloso talvez note que, em cada canto desse lugar, existe uma tentativa. Depara-se com isso enquanto continua absorta com o mar, mergulhada nele, apesar de sequer molhar os pés. O que a faz pensar que é também uma questão de ponto de vista o tocar, portanto, pode-se estar embebida de presença sem ao menos tocar ou ser tocada. Não escuta as ondas que se quebram na margem, ininterruptamente, pois há canto na voz de um silêncio específico.  Lembra de Príncipe das marés, de Adriana Calcanhotto, à cantar “a minha terra é o mar”, não há lugar para ela nesse mundo, exceto a morada salgada, que jamais há de ser dela. Se aferrece a ideia ilusória de posse, deixa que se desfaça e se deixa.

“Mar, metade da minha alma é feita de maresia” (Sophia de Mello Breyner Andresen)

Perto do fim, antes mesmo de se levantar para ir embora, está aí um ponto a ser sentido, a presença de uma ausência antes de se concretizar como tal. Ela se deixa quedar por mais tempo e ameaça a partida, mas retém-se ali, jamais imóvel, sempre num movimento lento e único, tendo seus cabelos balançados pelos ventos de força feminina, de força divina feminina. Ali fica, a observar e sentir e ouvir e pensar, buscando compreender, pois que a compreensão é muitas vezes demorada. Escuta uma canção em que parece que algo é quebrado, e pensa que anda prestando mais atenção nos erros do que nos acertos, no intuito, talvez, de ver no erro aquela tentativa, aquele feixe inesperado, um surgimento, um acontecimento. Mas algo se parte, como se escorregasse para fora do esperado, como se marcasse um defeito, mas que na verdade se consagra como a chave para o indecifrável, aquilo que está por trás do véu de um céu surrealista, quase impossível de ser capturado, pois assusta a quem ele encara com os olhos bem abertos e não chega à realidade fugidia. Ela se deixa enlaçar pelo mar, e ele a leva dentro de uma embarcação capaz de grandes navegações. Se dá conta, já tarde, que os pensamentos se direcionam a uma fonte, um lugar específico, uma lembrança de menina, e o que se estabelece como erro talvez seja a abertura para algo que não conseguia ver.

“Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim
” (Sophia de Mello Breyner Andresen)

É difícil falar de amor quando algo está partido dentro de si, mas ela percebe que no que está partido existe a possibilidade de releitura(s). Talvez o que se consagra como um erro seja, na verdade, uma brecha para outra coisa, uma tentativa. Se dar conta que a vida é uma constante realização de tentativas e abertura de possibilidades a faz pensar no medo, quanto medo. Ali, diante do mar, quanto medo! Clarice, noutro momento, através de uma de suas personagens, disse: “perder-se também é caminho”. Mas dá medo se perder, pois há o temor de não mais encontrar um lugar conhecido, um velho lugar conhecido, ou o temor de não tornar a encontrar a si novamente. Mas ela, ali, diante do mar, entende que o caminho referido pela personagem de Clarice é também uma possibilidade, uma possível consequência, um achado, não sabe, não sabemos. À parte disso, se segura na cela do cavalo, como um príncipe das marés – ou melhor, princesa das marés –, com a mão firme, mas também disposta a soltar a qualquer momento, não para irromper uma queda, mas para flexibilizar a vida e o que advém dela, relembrando os versos em canto: “Eu caio e ilesA levanto/'Tô prontA pra recomeçar”[1], ainda descobrindo o que é o amor e o que e a quem verdadeiramente, genuinamente, ama, porque talvez seja preciso entender-se[2] diante de um mar repleto de vazio, mas absurdamente cheio do desconhecido, entender-se, inclusive, na fagulha do perder-se e na certeza que jamais saíra ou sairá de uma queda ilesa, mas certamente, com a alma de maresia, feito o Eu lírico de Sophia de Mello Breyner Andresen, recomeçar, quando der, quando ela conseguir se levantar diante do mar sem fim.  



[1] Na versão original: “Eu caio e ileso levanto/ Tô pronto pra recomeçar”.

[2] Sentir-se?

 

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Carolinne Taveira
Carolinne Taveira
Sobre Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Possui Mestrado em Literatura e Interculturalidade, pela UEPB (2021) e graduação em Letras - Língua Portuguesa, pela UEPB (2017). Atualmente desenvolve pesquisa na área de Literatura Brasileira Contemporânea e Estudos de Gênero. É membro do Grupo de Estudos de Literatura e Crítica Contemporâneas (GELCCO).
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